sábado, 8 de maio de 2010

O país da novela

08/05/2010


As mulheres da minha vida assistem as novelas da Globo. Não suporto, mas devo respeitar. Isso não impede que, a cada vez que olho para a tevê ao passar pela sala, fique irritado com a mentira social que quase todas essas dramatizações apresentam.

Em 2008, segundo o IBGE o Brasil passou a ser um país de maioria negra – a soma de negros e pardos (descendentes de negros) ultrapassou a barreira dos 50% da população. Mas não é isso que se vê na propaganda e nas tevês.

Não é novidade? Enquanto essa questão continuar sendo tolerada, será como se fosse.

Estou com isso na cabeça desde que assisti ao rapper MV Bill colocar o Faustão numa saia justa durante a execução de uma de suas músicas, na qual, a certa altura, diz que na TV brasileira “só tem paquita loira” e “não tem apresentadora negra”.

Escrevo depois de assistir a um capítulo da fracassada (no Ibope) novela global “Viver a Vida”. Mas que droga, meu Deus. E que mentira. Que país é aquele?

São todos brancos. Uma negra “branqueada” que vive rodeada de brancos e uma família negra de classe alta. Tudo que a Globo concede é um núcleo negro em uma novela de brancos. Aliás, os pardos são ainda mais raros do que os negros, apesar de serem mais de 40% da população.

Calculo que uns noventa por cento do elenco são brancos. Quase todas as tramas centrais envolvem os brancos. Em quase toda novela da Globo é assim.

Alguns dirão que tem que se respeitar a criação artística, como se aquilo fosse algum tipo de arte. Mas quando todas as obras têm o mesmo viés racial, aí não dá pra escapar do fato de que MV Bill está certinho.

Por que?

Como é que este povo aceita praticamente não se ver representado em uma concessão pública a não ser em apresentação de pagode ou de samba ou em jogos de futebol?

Como é que nenhum governante tem coragem de exigir que a proporcionalidade racial de um povo simplesmente exista na tevê a que esse povo assiste?

Quem terá coragem de pôr o guiso nesse gato, no Brasil? Até quando uma nação inteira continuará sofrendo tal afronta?

Escrito por Eduardo Guimarães às 00h01

Matéria publicada por Leda Ribeiro (Colaboradora do Blog)

4 comentários:

Terapeuta disse...

Saraiva, penso que o "estoque" de negros e pardos frequentam o período da vespertino na novela Sinha Moça. Lá estão no seu devido lugar, segundo Ali Kamel, a senzala. É isso!

Anônimo disse...

Terapeuta,
Comentário perfeito.
Abraços,
Saraiva

Unknown disse...

Porque pardos são automaticamente considerados negros? Por acaso também não são descententes de brancos? Nos tribunais racias como da UnB, a maioria dos pardos não passaria como negros, já que o critério é o fenótipo. São negros apenas quando interessam aos líderes racialistas...

Ccesarbento disse...

As novelas do Manoel Carlos mostramq ue no Brasil existem duas classes: os ricos e os podre de ricos. Quanto aos artistas negros.. Onde anda a Ruth de Souza?