segunda-feira, 8 de março de 2010

A nudez de Soninha - e da Folha






Não vejo nada demais em mulheres – ou homens – posarem sem roupa para revistas masculinas, femininas ou gays. Como dizem, o que é bonito é para ser mostrado. Contando que seja no lugar e no momento apropriados, claro.

A subprefeita da administração Gilberto Kassab Soninha Francine, por exemplo, posou seminua para a revista Playboy. E daí? Nada, ora. Ela é bonitinha, está em forma e tem todo o direito de posar do jeito que quiser.

Quem parece ter achado que havia alguma coisa fora do comum nas fotos da “subprefeita” da Lapa paulistana foi a Folha de São Paulo, que a entrevistou por ter tirado a roupa para a revista. Ora, pessoas se despem para revistas o tempo todo e nem por isso são chamadas a dar entrevistas a grandes meios de comunicação.

O que, então, poderia justificar a decisão da Folha de inquirir Soninha sobre seu nu alegadamente “artístico”? Talvez essa decisão se deva ao fato de que enquanto a subprefeita se entrega às lentes da Playboy o bairro para o qual ela é paga para se preocupar está submergindo.

De fato, com os paulistanos sofrendo com as enchentes parece um tanto quanto bizarro uma das pessoas que deveria se preocupar com o problema aparentemente estar com a cabeça tão distante de questões de sua estrita responsabilidade.

A nudez de Soninha que incomoda, portanto, não é a nudez corporal, mas a nudez moral. Um aparente descaso com às vítimas das enchentes. Fico imaginando as vítimas do caos que se abateu sobre São Paulo vendo a pessoa que deveria estar trabalhando incessantemente por elas se entregando a devaneios estético-eróticos.

Mas Soninha não se desnudou moralmente sozinha, não. Um jornal também se despiu de vergonha ao colocar um colunista para tomar as dores da subprefeita e do seu “conselheiro”, que ela e o tal jornal dizem, na entrevista em questão, que é o governador José Serra.

O colunista da Folha de São Paulo Fernando de Barros e Silva, que acaba de se mostrar leitor assíduo da Blogosfera, teve um chilique porque um blog – que não diz qual é e que afirma ser ligado ao “lulo-governismo” – simplesmente reproduziu a entrevista de Soninha ao seu jornal.

No entender do colunista, o blog que ele acusa deu destaque ao que a subprefeita fez com o intuito de “atingir” Serra. Ora, mas quem optou por sair pelado na Playboy foi o blog ou foi a Soninha?

Barros e Silva também atacou uma revista – que tampouco diz qual é – por ter comparado a desnuda subprefeita à famosa porno-deputada italiana, Ilona Staller, a “Cicciolina”. E fez questão de destacar um erro de português no texto da publicação.

Talvez esse moço devesse ler mais o jornal para o qual trabalha. O que não falta, ali, são maus-tratos ao idioma. Aliás, o texto dele mesmo não chega a ser esse primor todo que ele parece achar que é. E a comparação com Cicciolina pode ser um tanto exagerada, mas não de todo...

Abaixo, a coluna em questão. Depois dela, continuo comentando.

Folha de São Paulo

9 de março de 2010

FERNANDO DE BARROS E SILVA

(Sub)Nudez castigada

Parece até que essa gente nunca viu mulher pelada. A rigor, pelo que se noticiou, nem nua Sonia Francine está. A subprefeita da Lapa é na verdade uma "subpelada". A imagem é discreta, quase casta. Mas bastou para deflagrar uma onda pudibunda de indignação, insultos, baixarias. Estamos diante de um tribunal digno de uma farsa de Nelson Rodrigues.

Moralismo e o oportunismo político mais baixo se misturam na reação à foto para a "Playboy". Uma revista semanal filiada ao lulo-governismo estampou as imagens de Soninha e de Cicciolina lado a lado, comparando-as. Sob o título "Eis outro plebiscito", a publicação diz que seu "voto" vai para a atriz pornô italiana. E conclui: "Se é para engrossar, engrossemos".

Foram tão fieis a si mesmos que engrossaram até o vernáculo. Lemos ali que Soninha está em plena "ascenção política" -com C cedilha. Isso, sim, é ironia fina.

Por incrível que pareça, há coisas piores. Na internet, o blog de um jornalista a serviço de Dilma Rousseff, em torno do qual gravita o lúmpen do petismo, acolhe e estimula comentários francamente fascistas sobre a nudez, no intuito de atingir José Serra. Reuniu-se na rede uma horda de mercenários e linchadores – analfabetos morais que agem como filhotes de Mirian Cordeiro.

Mas há também uma reação à nudez genuinamente conservadora. Ela aparece em comentários do tipo: "Enquanto ela fica pelada, a praça continua imunda". Ora, é claro que a cidade não estaria em melhor estado se Soninha fosse uma freira. A subprefeita paga caro por ceder a uma vaidade frívola, embora inofensiva, quando os descalabros da administração Kassab vêm à tona e São Paulo afunda em águas sujas.

Sim, Soninha não poderia ter escolhido hora mais imprópria para atirar a roupa no Tietê. Mas, diante de tanta hipocrisia e cafajestada, poderia dizer, como o anjo pornográfico: "Não tenho culpa se o espectador resolve projetar em mim a sua própria obscenidade".

O sujeito concorda que a hora escolhida por Soninha para posar para a Playboy foi “imprópria”. Seu jornal também, já que chegou ao ponto de entrevistar a “subprefeita” exibicionista, obviamente que por achar a sua atitude, no mínimo, “curiosa”.

Agora, se não gosta de cafajestadas contra mulheres em órgãos de imprensa e em blogs, poderia ter se pronunciado quando seu colega Josias de Souza, ano passado, publicou as fotos de Marta Suplicy e de Dilma Rousseff sob legenda contendo as palavras “vadias” e “vagabundas”.

Do jeito que o tal Barros e Silva se indigna seletivamente, parece que quem anda prestando serviços a políticos não são o blog ou a revista que não teve peito de nominar. A impressão que ficou foi que o colunista fez esses ataques para tentar acalmar Serra por seu jornal ter dado destaque ao desvario da subprefeita.

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Escrito por Eduardo Guimarães às 21h27
Matéria publicada por Leda Ribeiro (Colaboradora do Blog)

Um comentário:

Navarro disse...

Parabéns! Adorei. Este pessoal esta acostumado a estabelecer as verdades e não aceitar contrapontos. Destaque para o "memorável" Josias de Souza e suas vadias, muito bem lembrado e oportuno.