
A manchete do Estadão tem dois meses, mas poderia ser a de hoje. O apetite por juros não mudou
Ontem, como vocês viram, eu meio que remei contra a maré. Quando a mídia faz coro, é bom botar as barbas de molho. Os jornalões não estão contentes com o crescimento – que, repito, não é explosivo – da economia brasileira. Vou insistir no que venho dizendo: não há explosão de consumo ou superaquecimento econômico. Há uma forte evolução, sim, na demanda por crédito imobiliário e no crédito de consumo, mas um é operação estruturada, de longo prazo e outro é de curto prazo, ligado ao consumo das famílias. E este item, no PIB, teve um crescimento absolutamente harmônico com a recuperação geral da economia: subiu 9,3% na comparação anual (o PIB subiu 9%) e foi até menor do que a evolução do Produto Interno Bruto na comparação com o trimestre anterior, 1,5% contra uma elevação geral do PIB de 2,4% (sem ajuste sazonal).
Não há inflação de demanda, não há crescimento explosivo.Onde o crescimento é muito forte, isso sim, é na demanda por crédito de longo prazo, mas isso é reflexo de duas coisas muito simples de entender.
Primeiro, com o boom setor imobiliário – graças aos programas públicos de habitação – e com a ampliação – muito forte - das linhas do BNDES, este crédito voltou a existir.
Segundo, a combinação entre otimismo com a economia brasileira e juros menos extorsivos abriram-se as válvulas de um país que funcionava com aquela tese do “no longo prazo estaremos todos mortos”, que fazia que o volume do crédito em nossa economia fosse muito baixo, inclusive pelos padrões internacionais de relação crédito/PIB. Traduzindo: pegar dinheiro emprestado no Brasil não era apenas difícil, mas também uma verdadeira “fria”.
Há um continuado crescimento do consumo e um constinuado crescimento da economia e nenhuma razão senão a pressão do mercado financeiro para que este ciclo não prossiga. E esta pressão tem o nome de juros.
Para legitimar o apetite pela remuneração do capital, que são os juros, é preciso criar o terror. O nome do terror é inflação.
Passamos o primeiro semestre ouvindo os comentaristas e analistas econômicos repetindo isso. O tal boletim Focus, do Banco Central, onde os bancos projetam suas expectativas de inflação e juros futuros, ganhou ares de Oráculo de Delfos.
Se eu quisesse paracer um “economista bacana”, poderia dizer que isso era um wishful think, que traduzido livremente seria algo como chegar a uma conclusão baseado, essencialmente, na sua própria vontade de que aquilo aconteça.
Por isso, faz tempo que eu venho escrevendo aqui (e aqui, já em janeiro) que não há nenhuma explosão, nem mesmo a inflacionária, que usam como pretexto para seus apetites. é certo que há inflação, mas eu acho que se contam nos dedos de uma só mão os exemplos na história onde houve crescimento econômico acompanhado de deflação ou estabilidade total nos preços).
Os dados do IPCA, divulgados hoje pelo IBGE, comprovam isso. A taxa mensal caiu para 0,43%, a menor do ano e, embora o índice do primeiro quadrimestre de 2010 esteja bem acima do que foi registrado em igual período do ano passado, o acumulado nos últimos 12 meses já apresenta uma ligeira baixa da inflação sobre a dos 12 meses anteriores. E lembremo-nos que, tal como ocorre com o PIB, estamos comparando este quadrimestre com outro em que pagávamos o efeito da crise, com retração na produção industrial, no emprego e, consequentemente, nas pressões da demanda- sobretudo a industrial – sobre os preços.
O crescimento do PIB foi o empadão servido para os senhores que vão se reunir hoje no Copom aumentarem os juros. O dado do IBGE pode, até, ter tirado a azeitona do empadão.
O negócio é torcer para que, no mínimo, os senhores do Copom controlem o apetite e não cheguem aos 0,75 ou 1% de aumento pelos quais os banqueiros e rentistas em geral já lambem os beiços.
Nenhum comentário:
Postar um comentário