sábado, 3 de setembro de 2011

O preconceito de classe da imprensa e da Justiça. A aula do Caco

E ela gozava, Excelência?
O incomparável repórter Caco Barcellos, da Globo, participou do Seminário “Poder Judiciário e Imprensa”, promovido pela Escola de Magistratura da Justiça Federal da Terceira Região.
Caco deu uma aula magna.
Aqui se tenta reproduzí-la de forma não literal.
Há uma diferença essencial entre o jornalismo “investigativo” e o jornalismo “declaratório”, começou Caco.
O investigativo é o do repórter ativo, com luz própria, que investiga antes de a informação se tornar pública.
Que ouve os envolvidos e, a partir das declarações, começa a investigar, confrontar a declaração com os fatos que apurou.
Declaratório é o jornalismo praticado na maioria das redações brasileiras.
Basta uma fonte da área publica ou privada e isso, por si só, se torna uma notícia.
(Frequentemente, a fonte é anônima – PHA.)
Ao ouvir o “outro lado”, o que esse jornalismo declaratório consegue, na melhor das hipóteses é criar uma polêmica.
E se as duas declarações contiverem mentiras?
Como agir?
Investigar depois de colher as declarações.
Caco deu dois exemplos desastrosos de jornalismo declaratório.
Um ocorreu no lado direito do espectro político e outro, no lado esquerdo.
No lado direito, o impeachment do Presidente Collor se iniciou na imprensa com a entrevista de um irmão ressentido.
A imprensa não provou uma linha do que ele disse.
Collor sofreu uma punição política, mas não se provou nada contra ele.
A denúncia judicial e a denúncia de imprensa devem ter sido, portanto, incompetentes.
No lado esquerdo, se fala de um mensalão.
A partir de uma declaração de um deputado advogado criminalista que disse existir um mensalão.
Cadê a prova?
A imprensa não conseguiu produzir uma prova de que havia um mensalão.
(Ou como diz o Mino Carta, o mensalão ainda está por provar-se – PHA).
É no que dá o jornalismo “declaratório”.
Caco, em seguida, falou do preconceito de classe na Justiça e na imprensa.
Por exemplo, quando se denúncia corruptos e não se identifica, nunca, os corruptores.
(Quem corrompia o PC Farias? Quem botava grana no valeriodantas?– pergunta este ansioso blogueiro ao PiG. Ele sabe resposta...)
No Brasil existe o que se chama na linguagem policial – e da imprensa policial – o “auto de resistência”, explicou Caco.
É como se registra a morte de um civil que teoricamente entrou em confronto armado com a polícia.
Um em cada cinco mortos em São Paulo, numa pesquisa do Caco, morreu em “auto de resistência”, em tiroteio com policiais.
Outra maneira de se nomear os atos que resultam em autos de resistência, diz Caco, seria usar a expressão “esquadrão da morte” – que todo brasileiro conhece.
A imprensa esconde os autos de resistência das estatísticas.
E as vítimas também.
Num levantamento que o Caco fez, de 4 mil e 200 vítimas da Policia de São Paulo, três eram de classe média.
Todos os outros, trabalhadores de São Paulo.
Nos últimos anos, no Rio, houve 5 mil mortes nas mesmas circunstâncias.
20% das mortes no Grande Rio são autos de resistência.
Os autores dos autos de resistência são provavelmente os autores da morte da Juíza de Niterói.
Caco desafiou a plateia:
Dê o nome de uma única vitima de um auto de resistência.
Dê o nome de um dos 5 mil.
Estamos diante de uma manifestação de preconceito de classe, disse Caco.
O regime militar que tanto lamentamos matou 400 pessoas.
Em quatro meses, no Rio, as tropas de elite mataram 500 pessoas.
E ninguém sabe quem morreu.
Dê o nome de um único morto.
Você não verá na imprensa nem na Justiça.
(Aplausos!)
Em tempo: Caco contou que um Juiz se ofereceu para lhe dar uma informação em off. Dessas informações tão comuns na imprensa brasileira: quando alguém destrói o caráter de outro, sem sujar as mãos. O Juiz disse que a Juíza ia aos presídios de Niterói para ter relações sexuais com presos. Caco perguntou, também em voz baixa, no ouvido do Juiz: e ela gozava?
Clique aqui para ler “PHA em Escola da Magistratura: a censura agora é na Justiça!

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