sábado, 23 de fevereiro de 2013

A revolução dos ricos e corruptos: o país mercadoria

Na coluna desta semana, Márcia Denser questiona se a “revolução dos ricos e corruptos” não vai acabar nunca. “Num mundo estagnado, a pressão para entregar tudo aos detentores dos mercados globais, em voraz processo de reordenação, é cada vez maior”

O editorial de Saul Leblon para a Carta Maior de 6 de fevereiro passado é tão exemplarmente verdadeiro e contundente, que está valendo resumir seus melhores trechos. Diz ele que, quando eleito presidente do Chile, em janeiro de 2010, o direitista Sebástian Piñera reavivou a esperança conservadora latino-americana: “Sua vitória reluziu como a revanche diante de um colar de governos progressistas que asfixiavam o horizonte da direita regional”.
Enfim, um porta-voz moderno do dinheiro grosso (e sujo) e de quem fala idem: os ricos.
Antes mesmo de Thatcher, o Chile foi militarmente capturado para ser a cozinha experimental do neoliberalismo (vide Naomi Klein, A doutrina do choque). Talvez fosse mais apropriada a metáfora ‘açougue’, pois ali se sangrou, retalhou, picou e moeu uma nação até reduzi-la a uma massa disforme e vegetativa. Dessa matéria-prima nasceu a primeira receita mundial bem sucedida do cardápio que decretaria o fim do capitalismo regulado, a partir dos anos 70. Tal mix indigesto foi enfiado goela abaixo de uma das nações mais democráticas do continente latino-americano.
E foi estrangulada sua tentativa de construir o socialismo pela via eleitoral. Caciques da direita regional e global aderiram em massa ao modelito. Contudo, Piñera não serviu diretamente à ditadura mais sanguinária da AL. Justamente por isso sua vitória em 2010 acendeu o entusiasmo conservador: era a ponte “digerível” entre dois mundos. “É provável que se fortaleça na América do Sul uma ‘frente antichavista’, integrada por Álvaro Uribe (Colômbia), Alan García (Peru) e o próprio Piñera”, previu lugubremente um editorial da FSP de outubro de 2010.
O dote de mandatário-revelação servia ademais para espicaçar a viabilidade política da recém-eleita Dilma Rousseff. Transcorridos três anos, Piñera rasteja a caminho de uma derrota sucessória antevista como inevitável, em novembro próximo.
O ‘poste de Lula’, como dizia Serra, ostenta mais de 70% de aprovação. O que se passa? O jornalismo que apostou na ressurgência neoliberal mostra-se estupefato. O Chile fez tudo como deve ser, toda a lição de casa. É a economia mais aberta da América Latina. O Estado é mínimo: a dívida do setor público é de apenas 11,5% do PIB (36% no Brasil). A previdência foi privatizada. A proteção trabalhista é pífia.
A linha da desigualdade lembra o eletrocardiograma dum morto: oscilou de 0,55 para 0,52 entre 1990 e 2009 (a do Brasil melhorou de 0,61 para 0,54). Segundo a Cepal (dados do jornal Valor Econômico), entre 1990 e 2009, o investimento público na área social oscilou mediocremente no país: de 15,2% para 15,6% do PIB.
Até o México, coitado, deu um passo maior no mesmo período: passou de 5,5% para 11,3% do PIB. No satélite direitista dos EUA, a Colômbia, o salto foi de 6,1% para 11,5%. Já no Brasil, a ‘ gastança’ avançou de 17,6% para 27,1% do PIB; na Argentina, de 18,6% para 27,8%.
O jornalismo conservador atribui à falta de ‘traquejo’ político de Piñera, o paradoxo entre uma economia ‘saudável’ e a rejeição política esmagadora. Só que o moderno gerente do Chile esqueceu de transformar o angu econômico numa Nação.
Afinal, quem quer o apoio dos órfãos? O Chile é uma equação de números enxutos. Uma população de 17 milhões de pessoas, menor que a da cidade de São Paulo; um PIB em torno de US$ 250 bi (o paulistano fica em torno de US$ 220 bi). No entanto, é um país simplificado por uma ditadura que decidiu exterminar fisicamente o estorvo ideológico e social representado pela classe trabalhadora organizada.
Uma parte foi sangrada nas baionetas de Pinochet, a outra demolida estruturalmente pelos sacerdotes do laissez-faire. Os Chicago’s boys ergueram no Chile o altar-mor de sua religião nos anos 70. Fizeram dele um país mercado que, como tal, não precisa de projeto nacional. Um fluxo de mercadorias não requer formulação intelectual própria, logo, não precisa de universidade pública autônoma. Um aglomerado de consumo não requer cidadania.
Em seu movimento popular, os estudantes chilenos rechaçaram em massa esse entendimento do que seja um ‘Chile moderno’. E levaram para as ruas o inconformismo de décadas. Condensaram um grito de 50 anos numa bandeira ao mesmo tempo simples e atroz: ‘ensino público, gratuito e de qualidade’.
Nada pior do que um povo reduzido a uma fila de supermercado.
Mas o fracasso de Piñera não deve ser desfrutado com precipitações simplistas, até porque o jogo não acabou. O que diferencia Dilma do gerente chileno é o fato de representar um esforço político deliberado de construir uma sociedade ao mesmo tempo próspera e justa no Brasil. Esse vínculo foi extirpado do conceito de economia ‘saudável’ no Chile. E não só ele.
A qualidade do desenvolvimento perseguido pelo Brasil ancora-se numa usina de irradiação de riqueza repudiada estruturalmente no Chile desde Pinochet: a industrialização. A singularidade brasileira não é uma conquista dada de graça. É um projeto de país diariamente ameaçado pelos interesses que contraria – que não são poucos, nem unicamente locais.
Num mundo estagnado, a pressão para entregar tudo aos detentores dos mercados globais, em voraz processo de reordenação, é cada vez maior. Não por acaso Aécio Neves cercou-se de profissionais do ramo, rumo a 2014. Resistir passou a exigir definições mais coerentes e mais profundas. E linhas de passagem mais curtas e ousadas.
Um trecho do artigo Luiz Gonzaga Belluzzo no jornal Valor Econômico de 5 de fevereiro expressa a tensão estrutural que permeia as escolhas e combinações em jogo. Segundo Belluzzo: “As vantagens da China e de seus parceiros asiáticos não estão asseguradas. Não há repouso no capitalismo. Depois da crise de 2008 e de suas consequências, os países que perderam posição na disputa competitiva da manufatura – sobretudo os Estados Unidos – acenam com uma nova rodada de inovações, aquelas que seriam classificadas de ‘poupadoras de mão de obra’ pelos sábios que ainda utilizam funções de produção”.
“O economista chefe da General Eletric, Marco Annunziata e Kenneth Rogoff preconizam a iminência de um intenso movimento de automação baseado na utilização de redes de “máquinas inteligentes. Nanotecnologia, neurociência, biotecnologia, novas formas de energia e novos materiais formam o bloco de inovações com enorme potencial de revolucionar outra vez as bases técnicas do capitalismo.”
“Todos os métodos que nascem dessa base técnica não podem senão confirmar sua razão interna: são métodos de produção destinados a aumentar a produtividade social do trabalho em escala crescente. Sua aplicação continuada torna o trabalho imediato cada vez mais redundante. A autonomização da estrutura técnica significa que a aplicação da ciência torna-se o critério dominante no desenvolvimento da produção.”
“O jogo da grande empresa é jogado no tabuleiro em que a mobilidade do capital impõe conjuntamente a liberalização do comércio, o controle da difusão do progresso técnico (leis de patentes etc..) e o enfraquecimento da capacidade de negociação dos trabalhadores. Assim, as “novas” formas de concorrência escondem, sob o diáfano véu da liberdade, o aumento brutal da centralização do capital, a concentração do poder sobre os mercados, a enorme capacidade de ocupar e abandonar territórios e de alterar as condições de vida das populações”. (Luiz Gonzaga Belluzzo; Valor, 05-02).
Pois é, o recado de Belluzzo é claro: preparem-se, vem aí mais chumbo grosso. E Leblon alerta: o hiper-neoliberal Aécio também – constituindo um horizonte político e econômico, nacional e global, dos mais sombrios.
E a pergunta que não quer calar: será que a “revolução dos ricos e corruptos” não acaba nunca?

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Do Blog O Esquerdopata.

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