Na coluna desta semana, Márcia Denser
questiona se a “revolução dos ricos e corruptos” não vai acabar nunca.
“Num mundo estagnado, a pressão para entregar tudo aos detentores dos
mercados globais, em voraz processo de reordenação, é cada vez maior”
O editorial de Saul Leblon para a Carta Maior de 6 de fevereiro
passado é tão exemplarmente verdadeiro e contundente, que está valendo
resumir seus melhores trechos. Diz ele que, quando eleito presidente do
Chile, em janeiro de 2010, o direitista Sebástian Piñera reavivou a
esperança conservadora latino-americana: “Sua vitória reluziu como a
revanche diante de um colar de governos progressistas que asfixiavam o
horizonte da direita regional”.
Enfim, um porta-voz moderno do dinheiro grosso (e sujo) e de quem fala idem: os ricos.
Antes mesmo de Thatcher, o Chile foi militarmente capturado para ser a
cozinha experimental do neoliberalismo (vide Naomi Klein, A doutrina do choque).
Talvez fosse mais apropriada a metáfora ‘açougue’, pois ali se sangrou,
retalhou, picou e moeu uma nação até reduzi-la a uma massa disforme e
vegetativa. Dessa matéria-prima nasceu a primeira receita mundial bem
sucedida do cardápio que decretaria o fim do capitalismo regulado, a
partir dos anos 70. Tal mix indigesto foi enfiado goela abaixo de uma das nações mais democráticas do continente latino-americano.
E foi estrangulada sua tentativa de construir o socialismo pela via
eleitoral. Caciques da direita regional e global aderiram em massa ao
modelito. Contudo, Piñera não serviu diretamente à ditadura mais
sanguinária da AL. Justamente por isso sua vitória em 2010 acendeu o
entusiasmo conservador: era a ponte “digerível” entre dois mundos. “É
provável que se fortaleça na América do Sul uma ‘frente antichavista’,
integrada por Álvaro Uribe (Colômbia), Alan García (Peru) e o próprio
Piñera”, previu lugubremente um editorial da FSP de outubro de 2010.
O dote de mandatário-revelação servia ademais para espicaçar a
viabilidade política da recém-eleita Dilma Rousseff. Transcorridos três
anos, Piñera rasteja a caminho de uma derrota sucessória antevista como
inevitável, em novembro próximo.
O ‘poste de Lula’, como dizia Serra, ostenta mais de 70% de aprovação. O
que se passa? O jornalismo que apostou na ressurgência neoliberal
mostra-se estupefato. O Chile fez tudo como deve ser, toda a lição de
casa. É a economia mais aberta da América Latina. O Estado é mínimo: a
dívida do setor público é de apenas 11,5% do PIB (36% no Brasil). A
previdência foi privatizada. A proteção trabalhista é pífia.
A linha da desigualdade lembra o eletrocardiograma dum morto: oscilou de
0,55 para 0,52 entre 1990 e 2009 (a do Brasil melhorou de 0,61 para
0,54). Segundo a Cepal (dados do jornal Valor Econômico), entre 1990 e 2009, o investimento público na área social oscilou mediocremente no país: de 15,2% para 15,6% do PIB.
Até o México, coitado, deu um passo maior no mesmo período: passou de
5,5% para 11,3% do PIB. No satélite direitista dos EUA, a Colômbia, o
salto foi de 6,1% para 11,5%. Já no Brasil, a ‘ gastança’ avançou de
17,6% para 27,1% do PIB; na Argentina, de 18,6% para 27,8%.
O jornalismo conservador atribui à falta de ‘traquejo’ político de
Piñera, o paradoxo entre uma economia ‘saudável’ e a rejeição política
esmagadora. Só que o moderno gerente do Chile esqueceu de transformar o
angu econômico numa Nação.
Afinal, quem quer o apoio dos órfãos? O Chile é uma equação de números
enxutos. Uma população de 17 milhões de pessoas, menor que a da cidade
de São Paulo; um PIB em torno de US$ 250 bi (o paulistano fica em torno
de US$ 220 bi). No entanto, é um país simplificado por uma ditadura que
decidiu exterminar fisicamente o estorvo ideológico e social
representado pela classe trabalhadora organizada.
Uma parte foi sangrada nas baionetas de Pinochet, a outra demolida estruturalmente pelos sacerdotes do laissez-faire. Os Chicago’s boys
ergueram no Chile o altar-mor de sua religião nos anos 70. Fizeram dele
um país mercado que, como tal, não precisa de projeto nacional. Um
fluxo de mercadorias não requer formulação intelectual própria, logo,
não precisa de universidade pública autônoma. Um aglomerado de consumo
não requer cidadania.
Em seu movimento popular, os estudantes chilenos rechaçaram em massa
esse entendimento do que seja um ‘Chile moderno’. E levaram para as ruas
o inconformismo de décadas. Condensaram um grito de 50 anos numa
bandeira ao mesmo tempo simples e atroz: ‘ensino público, gratuito e de
qualidade’.
Nada pior do que um povo reduzido a uma fila de supermercado.
Mas o fracasso de Piñera não deve ser desfrutado com precipitações
simplistas, até porque o jogo não acabou. O que diferencia Dilma do
gerente chileno é o fato de representar um esforço político deliberado
de construir uma sociedade ao mesmo tempo próspera e justa no Brasil.
Esse vínculo foi extirpado do conceito de economia ‘saudável’ no Chile. E
não só ele.
A qualidade do desenvolvimento perseguido pelo Brasil ancora-se numa
usina de irradiação de riqueza repudiada estruturalmente no Chile desde
Pinochet: a industrialização. A singularidade brasileira não é uma
conquista dada de graça. É um projeto de país diariamente ameaçado pelos
interesses que contraria – que não são poucos, nem unicamente locais.
Num mundo estagnado, a pressão para entregar tudo aos detentores dos
mercados globais, em voraz processo de reordenação, é cada vez maior.
Não por acaso Aécio Neves cercou-se de profissionais do ramo, rumo a
2014. Resistir passou a exigir definições mais coerentes e mais
profundas. E linhas de passagem mais curtas e ousadas.
Um trecho do artigo Luiz Gonzaga Belluzzo no jornal Valor Econômico de 5
de fevereiro expressa a tensão estrutural que permeia as escolhas e
combinações em jogo. Segundo Belluzzo: “As vantagens da China e de seus
parceiros asiáticos não estão asseguradas. Não há repouso no
capitalismo. Depois da crise de 2008 e de suas consequências, os países
que perderam posição na disputa competitiva da manufatura – sobretudo os
Estados Unidos – acenam com uma nova rodada de inovações, aquelas que
seriam classificadas de ‘poupadoras de mão de obra’ pelos sábios que
ainda utilizam funções de produção”.
“O economista chefe da General Eletric, Marco Annunziata e Kenneth
Rogoff preconizam a iminência de um intenso movimento de automação
baseado na utilização de redes de “máquinas inteligentes.
Nanotecnologia, neurociência, biotecnologia, novas formas de energia e
novos materiais formam o bloco de inovações com enorme potencial de
revolucionar outra vez as bases técnicas do capitalismo.”
“Todos os métodos que nascem dessa base técnica não podem senão
confirmar sua razão interna: são métodos de produção destinados a
aumentar a produtividade social do trabalho em escala crescente. Sua
aplicação continuada torna o trabalho imediato cada vez mais redundante.
A autonomização da estrutura técnica significa que a aplicação da
ciência torna-se o critério dominante no desenvolvimento da produção.”
“O jogo da grande empresa é jogado no tabuleiro em que a mobilidade do
capital impõe conjuntamente a liberalização do comércio, o controle da
difusão do progresso técnico (leis de patentes etc..) e o
enfraquecimento da capacidade de negociação dos trabalhadores. Assim, as
“novas” formas de concorrência escondem, sob o diáfano véu da
liberdade, o aumento brutal da centralização do capital, a concentração
do poder sobre os mercados, a enorme capacidade de ocupar e abandonar
territórios e de alterar as condições de vida das populações”. (Luiz
Gonzaga Belluzzo; Valor, 05-02).
Pois é, o recado de Belluzzo é claro: preparem-se, vem aí mais chumbo
grosso. E Leblon alerta: o hiper-neoliberal Aécio também – constituindo
um horizonte político e econômico, nacional e global, dos mais sombrios.
E a pergunta que não quer calar: será que a “revolução dos ricos e corruptos” não acaba nunca?
Leia mais em: Blog Sujo
Under Creative Commons License: Attribution
Do Blog O Esquerdopata.
Nenhum comentário:
Postar um comentário