quarta-feira, 17 de abril de 2013

Fux não podia ser amigo de Bermudes

Do Diário do Centro do Mundo - 17 de abril de 2013
 

As relações promíscuas na justiça — e na mídia — são um embaraço ético extraordinário.

Fux e a filha Marianna
Fux e a filha Marianna


Paulo Nogueira


Como o sistema judiciário brasileiro pôde chegar ao descalabro que hoje, e apenas hoje, se sabe que é sua maior marca?

Onde esteve a mídia, estes anos todos, que não viu nada, não denunciou nada e não propôs nada para mitigar as aberrações?

Dezenas, centenas, milhares de matérias sobre a ‘morosidade da justiça’ e nada sobre a estrutura viciosa do sistema judiciário?

Já não dá sequer para alegar surpresa com a informação, trazida pelo Estadão, de que o juiz Luiz Fux – sempre ele — examinou processos que envolviam o escritório de Sérgio Bernandes, o patrão de sua filha, a advogada Marianna.

É uma situação de escandalosa promiscuidade – e ainda assim aconteceu. Você pode imaginar, ao longo da história, quantas vezes este tipo de coisa ocorreu com outros juízes e outros escritórios.

Vamos colocar assim: juiz não tem amigo.

Estou usando uma frase célebre de um dos maiores editores da história, Joseph Pulitzer.

 Pulitzer é simplesmente desprezado por jornalistas como Merval e Azevedo

 
“Jornalista não tem amigo”, dizia (e praticava) ele. Por razões óbvias: a amizade compromete a isenção. Como um jornalista vai escrever sobre um amigo ministro, por exemplo?

As amizades têm que estar inteiramente fora do âmbito profissional. Pulitzer escreveu a sentença magistral há quase 150 anos, mas no Brasil parece que jamais foi lida por quem deveria.
Da mesma forma que jornalista, juiz não tem amigo. Se esta máxima de Pulitzer fosse seguida, boa parte dos problemas de promiscuidade na justiça brasileira estaria resolvida.
Mas o que você vê com total despudor, como se fosse a coisa mais natural do mundo, é a negação de Pulitzer.

Juízes como Gilmar Mendes e (agora aposentado, graças a Deus) Ayres Britto confraternizam com jornalistas como Merval Pereira e Reinaldo Azevedo como se merecessem uma comenda por se abraçarem.

É uma dupla infração.

Nem os jornalistas e nem os juízes podiam se colocar numa situação tão constrangedora.
O Brasil – a mídia, a justiça, a política – sofre de excesso de amizades, para empregar a lógica pulitzeriana.

A vítima é o interesse público.

Todos estas relações de cumplicidade  – Merval & Ayres, Azevedo & Gilmar, Fux & Bermudes – são, eticamente, inaceitáveis.

Pelo seguinte: Merval tenderá a favorecer Ayres. Ayres tenderá a favorecer Merval. Azevedo tenderá a favorecer Gilmar. Gilmar tenderá a favorecer Azevedo. Fux tenderá a favorecer Bermudes. Bermudes tenderá a favorecer Fux.
É muito favorecimento para um país só.

Quando existe a possibilidade de favorecimento nesta escala, sabemos todos quem é o grande desfavorecido: o interesse público.

Ou, para usar a nomenclatura de um de nossos anti-Pulitzers, o fundador da Globo, Irineu Marinho, “o Zé do Povo”.

Paulo Nogueira. Jornalista baseado em Londre, é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
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