Mais seis mil membros só na última década
O Opus
Dei está hoje presente em todos os continentes e continua a crescer. A
sua legitimidade na Igreja tem vindo a tornar-se cada vez mais sólida.
Apesar de a organização procurar ser um exemplo de moralidade, já foi
envolvida em escândalos de corrupção. Tem membros poderosos, entre os
quais se inclui um antigo n.º 1 do FBI.
O Opus Dei não para de crescer um pouco por todo o mundo. Na última
década, a prelatura ganhou mais de seis mil membros - a um ritmo de mais
de 600 adesões por ano - e instalou-se em seis novos países. Indonésia,
Roménia e Coreia do Sul foram os últimos a receber a obra, que conta
com 90 260 membros espalhados por 66 países.
O crescimento do Opus Dei tem sido sempre gradual e sustentado desde que
a 2 de outubro de 1928, durante um retiro em Madrid, Josemaría Escrivá
de Balaguer, por "inspiração divina", decidiu fundar o Opus Dei. Houve,
no entanto, uma travessia no deserto até a obra se conseguir afirmar na
Igreja Católica, onde sempre teve - e continua a ter - críticos.
A procura de influência junto do Vaticano começou quando Josemaría
Escrivá de Balaguer estabeleceu a sua residência em Roma, em 1946.
Apesar disso, manteve a sua força em Espanha, que dura até aos dias de
hoje. Atualmente, cerca de 38% dos membros do Opus Dei (35 mil) são
espanhóis. Aliás, os três líderes da obra desde a sua criação nasceram
todos na Espanha (Balaguer, Portillo e Echevarría).
O Opus Dei tem também grande representação nos EUA, onde o poder está
centralizado numa sede nacional em Manhattan, na esquina da Lexington
Avenue com a 34.ª Avenida. O edifício, batizado com o nome de Murray
Hill Place, acabou de ser construído em 2001 e custou 52,8 milhões de
euros, suportados - garante o Opus Dei - apenas por donativos.
É também conhecida a influência do Opus Dei na América Latina, onde
membros da obra terão sido preponderantes no derrube do regime
socialista de Salvador Allende, no Chile. Aliás, a história também
influencia as visões negativas que hoje se tem da obra. O professor
norte-americano Brian Smith, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(EUA), afirma no livro A Igreja e a Política no Chile que os membros do
Opus Dei "estavam entre os principais administradores do brutal e
opressivo regime militar do general Pinochet".
A obra também é historicamente associada ao ditador espanhol Francisco
Franco. E percebe-se porquê: oito membros do Opus Dei foram ministros em
Governos de Franco. Porém, pouco depois do Maio de 68, Rafael Calvo
Serer, numerário, meteu-se em problemas com o regime quando escreveu um
artigo dizendo que Franco deveria "retirar-se a tempo". Aí teve de ser
Balaguer a interceder e a pedir a Franco que deixasse Calvo Serer partir
para o exílio.
Os escândalos financeiros
Outra das páginas que mancham a história do Opus Dei são os escândalos
"Matesa" e "Rumasa". A Matesa era uma empresa ligada à indústria têxtil,
com sede no País Basco e criada em 1956. Gerida por Juan Vila Reyes -
alegado membro da obra, formado na escola de finanças do Opus Dei em
Barcelona -, a empresa terá lesado o Estado espanhol em mais de dez mil
milhões de pesetas, metade dos quais resultado de um empréstimo
fraudulento para comprar maquinaria. O que nunca aconteceu. O problema é
que a fraude - que levou ao despedimento de mais de duas mil pessoas e
lesou os cofres públicos castelhanos - não impediu Reys de fazer
donativos de 2,4 mil milhões de pesetas à obra.
Um ano depois de o papa João Paulo II ter tornado o Opus Dei na única
prelatura pessoal da Igreja Católica, a obra viu-se novamente envolta
num escândalo. Em 1983, o grupo espanhol Ramasa, que controlava diversos
bancos, faliu, sendo o seu presidente José Maria Ruiz-Mateos, membro do
Opus Dei. A Ramasa tinha um passivo superior a mil milhões de libras,
para o qual terão contribuído doações, como uma de sete milhões de
libras que alegadamente foi feita a um instituto de educação do Opus Dei
no arquipélago normando.
Nos dois casos, as próprias autoridades identificaram ligações ao Opus
Dei. Existem outras acusações (nunca confirmadas) de que o Opus controla
as finanças do Vaticano através de sociedades offshore. Os críticos
acusam até a obra de ter "comprado" a influência de que goza no
Vaticano. Recorde-se que o Opus Dei - que inclui a Sociedade Sacerdotal
da Santa Cruz - conta com 36 bispos, dos quais 21 pertencem à cúpula de
sacerdotes da obra e 15 são diocesanos.
Embora a maioria dos mais de 90 mil membros seja composta por cidadãos
comuns, existem no Opus figuras conhecidas em diversas áreas ao nível
mundial. Na política destacam-se o ex-presidente da Polónia, Lech
Walesa, o antigo primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, o antigo
presidente da Comissão Europeia Jacques Santer ou o antigo presidente do
Parlamento Europeu Gil Robles. Ainda na política, o candidato às
primárias republicanas do último ano, Rick Santorum, também tem ligações
ao Opus Dei, tal como o atual ministro do Interior de Mariano Rajoy,
Jorge Fernandéz Diaz.
No desporto, destacam-se nomes como o do antigo treinador do Benfica e
atual selecionador da Irlanda, Giovanni Trapatonni, ou o antigo
presidente do Comité Olímpico Internacional Juan Samaranch. A lista é
tão vasta que até o poderoso FBI já foi dirigido por um membro do Opus
Dei: Louis Free (nomeado por Clinton em 1993, só saiu do cargo meses
antes do 11 de Setembro, já durante o mandato de Bush "filho").
Por Rui Pedro Antunes
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