domingo, 21 de setembro de 2014

Por que a Folha não sobe no palanque?

Altamiro Borges, Blog do Miro

'No sábado passado (13), durante um comício em Belo Horizonte, o empresário Álvaro Teixeira da Costa, maior acionista dos Diários Associados – empresa que controla os jornais ‘Estado de Minas’ e ‘Correio Braziliense’ –, subiu ao palanque de Aécio Neves e Pimenta da Veiga. Ele tentou ser discreto, mas foi flagrado pelos fotógrafos. Até hoje os seus diários não explicitaram apoio ao PSDB, mas basta ler a cobertura “jornalística” para conhecer a torcida – seja nas disputas dos governos de Minas Gerais e do Distrito Federal, ou na corrida presidencial. Álvaro Teixeira da Costa até se expôs ao participar do comício. Seria mais honesto, porém, que os barões da mídia formalizassem os seus apoios, como ocorre em vários países do mundo.

No Brasil, a chamada grande imprensa tenta ludibriar os seus leitores/eleitores com a farsa da imparcialidade e da neutralidade. Alguns ingênuos até acreditam nesta balela. Acham que a velha mídia não tem o rabo preso com ninguém e que exerce o papel do “quarto poder”, fiscalizando os demais poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário. Na prática, isto nunca existiu. Com o processo de monopolização do setor, o partidarismo da mídia se consolidou de vez. Hoje ela ocupa o papel de “primeiro poder” ou de “Estado paralelo”, defendendo os seus interesses políticos e econômicos. Os jornalões e as emissoras de rádio e televisão até tentam disfarçar esta parcialidade com base em requintados padrões de manipulação, como já denunciou o mestre Perseu Abramo.

A falta de ética no jornalismo

Para o bem da democracia e da própria ética no jornalismo, os barões da mídia deveriam formalizar os seus apoios nas campanhas eleitorais. Em artigo publicado em 31 de agosto passado, intitulado “Por que a Folha não assume?”, a ombudswoman Vera Guimarães Martins até enfrentou este tema. Mesmo procurando defender seu emprego, insistindo na tese da neutralidade, ela argumentou que vários veículos no mundo formalizam seu apoio político. “Maior e mais famoso jornal do mundo, o ‘New York Times’ faz o chamado ‘endorsement’ a um dos postulantes à Presidência dos EUA desde 1860, quando endossou a candidatura de Abraham Lincoln. Em 39 eleições, o "Times" apoiou 12 republicanos e 26 democratas”.

Ele lembrou ainda que, no Brasil, o rival “Estadão” passou a avalizar candidaturas em 1985, com a volta da democracia. “Na campanha estadual de 1986, o escolhido foi Antônio Ermírio de Moraes, candidato pela coligação PTB-PL-PSC. Em 2000, para a prefeitura de São Paulo, a petista Marta Suplicy [sic]. Nas últimas eleições presidenciais, o apoiado foi o tucano José Serra”. Diante destas experiências, ela questiona por que o “seu” jornal não se posiciona explicitamente. “Na Folha, o raciocínio é diferente. ‘O apartidarismo é um princípio editorial, uma característica doutrinária do jornal’, afirma o editor-executivo, Sérgio Dávila. Fosse uma religião, a neutralidade partidária seria o seu dogma”. E conclui:

Ombudswoman não será ouvida


“Pessoalmente, acho que as duas escolhas são igualmente válidas, e não veria problema caso a Folha resolvesse ‘assumir’ uma preferência, desde que as razões fossem explicitadas de forma transparente no espaço reservado para a opinião do jornal. Quando a escolha é baseada na identificação com um programa defendido de forma clara e consistente pelo candidato, a declaração de apoio não afronta o apartidarismo. Os princípios da Folha são conhecidos e constantemente reafirmados em editoriais – neste ano, estão sendo também enfatizados em campanha publicitária. Seria perfeitamente legítimo o jornal declarar sua preferência circunstancial por uma candidatura que professasse o mesmo ideário”.

Será que a Folha topa a sugestão da ombudswoman? Duvido! Ela e o restante da mídia partidarizada do país preferem continuar ludibriando os ingênuos com a sua falsa neutralidade."
 

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