sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Aécio confessa por escrito mistura do público com o privado. É a carta testamento de sua candidatura.

Ontem, tardiamente, o senador Aécio Neves assinou artigo na Folha de São Paulo confessando que o aeroporto de Cláudio (MG) foi construído com dinheiro público e usado para seu desfrute particular.

Como se sabe o aeroporto foi construído com dinheiro público de Minas, em seu governo, em terras que eram de seu tio, está há quase 4 anos sem autorização da ANAC para funcionar por "falta de pressa" do governo de Minas e tem servido para o conforto particular do senador de descer de jatinho a 6 km de sua fazenda, evitando um trecho de menos de 40 minutos por estrada asfaltada se descesse no aeroporto vizinho de Divinópolis.

A artigo com o pretenso título "A Verdade sobre o aeroporto" é um desastre para imagem do tucano do início ao fim. Melhor seria o título "Carta testamento da candidatura de Aécio Neves".

Parece até um texto escrito por seu rival José Serra, para assumir o lugar de Aécio.

Na abertura do texto, na primeira frase, Aécio já se apresenta com um político arcaico, herdeiro do coronelismo da oligarquia política dos Neves da Cunha.

"Nasci no ambiente da política e vivi nele toda a minha vida..."

De fato é verdade, mas quem escreveu isto para ele, se é amigo, o tucano nem precisa de inimigos. É um péssimo começo para quem estava querendo explicar velhos vícios da política arcaica de misturar o público com privado, para beneficiar a si e a família.

Depois vem uma sucessão de erros na carta que enumeramos:

1) No meio da carta ele derrapa feio. Diz que "tomou o cuidado" de não asfaltar a estrada que liga Montezuma à Bahia e que passa na frente da fazenda que ele herdou do pai. Mas se contradiz ao dizer que asfaltou o aeroporto na cidade de menos de 8.000 habitantes. Ora, asfaltar uma estrada seria até mais útil para a população, que viaja de carro ou ônibus, do que o aeroporto, já que ninguém na cidade tem avião.

2) Outro déficit de verdade do senador foi não explicar como a fazenda de 950 hectares em Montezuma saiu do patrimônio público do Estado de Minas e virou propriedade privada de seu pai, através de um polêmico processo de usucapião.

3) O cúmulo da cara-de-pau, foi escrever: "No caso de Cláudio, cometi o erro de ver a obra com os olhos da comunidade local e não da forma como a sociedade a veria à distância".

Ora, a comunidade local, se entendida como a população de Cláudio, tinha centenas de outras reivindicações mais necessárias, em vez do aeroporto. A menos que o senador esteja se referindo apenas à seleta "comunidade" de seus parentes na cidade beneficiados com a obra.

4) Até para querer dizer que teria sido um erro a construção ali, seria necessário o senador ter um pouco de vergonha, e apresentar um estudo de viabilidade do aeroporto. Para falar em comunidade local deveria apresentar as atas de audiências públicas na cidade sobre o interesse na obra que, ao que tudo indica, nunca houveram, pois tudo parece ter sido decidido nos gabinetes fechados.

5) Depois de passar 11 dias se recusando a responder se usou ou não o aeroporto, tem a cara-de-pau de dizer que não tem nada a esconder, para tardiamente confessar que usou "algumas vezes". Mas não explica direito que usou clandestinamente. Diz apenas que foi um "equívoco não saber" que o aeroporto não estava autorizado a funcionar, ainda fechado ao público.

6) A decência recomendaria admitir que infringiu normas, assumir a responsabilidade e pelo menos declarar os vôos e pagar as multas pela infração.

7) Outra coisa digna de cara-de-pau foi culpar a Anac, quando é o Estado de Minas, governado por seu grupo político, que não regularizou o aeroporto junto ao Comando da Aeronáutica, etapa necessária para a Anac dar andamento.

8) Completa confessando "Viajei em aeronaves de familiares, no caso da família do empresário Gilberto Faria, com quem minha mãe foi casada por 25 anos". Aécio não disse, mas há aí mais uma mistura do público com o privado. O familiar dono deste jatinho citado foi nomeado por Aécio para a presidência de uma poderosa estatal mineira que lida com um orçamento bilionário vindo da mineração: a CODEMIG (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais).

Já tem tucano sentindo saudades de José Serra como candidato, mesmo com a Privataria Tucana.

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