sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sobre Eduardo Campos

Não tenho dúvidas que, nos últimos tempos, o ex-governador pernambucano, movido pelas ambições eleitorais da velha política, passou a se compor com o campo conservador. Aproximou-se de Aécio Neves e tentava construir uma frente comum para desgastar o PT e o governo Dilma.

A terceira via de Eduardo Campos, a bem da verdade, era tão verdadeira quanto uma nota de três reais. Na prática, sua aliança com Marina representava um segundo projeto dentro do bloco de partidos e classes que sustenta a candidatura do PSDB, alinhavado pelos mesmos interesses do capital rentista.

Mas havia uma diferença relevante: a trajetória histórica. O líder socialista fora, ao lado de seu avô Miguel Arraes, peça decisiva para a composição do núcleo duro da coalizão que se formara ainda em 1989 e acabaria por levar Lula à Presidência. Seu ninho era o acordo estratégico entre PT, PCdoB e PSB.

Poderia ter esperado mais um ou dois mandatos presidenciais, jovem que era, e não seria pouca a chance de que viesse a ser o nome da esquerda unida para contendas futuras. Açodado, e pressionado por um partido sem identidade nacional, virou presa da mosca azul do antipetismo.

Não foi apenas sua, no entanto, a responsabilidade pela ruptura do PSB com o partido de Lula e Dilma. A verdade é que o PT optou por renunciar à construção de uma aliança estratégica de esquerda, ao redor da qual se aglutinariam correntes de centro e até de direita, mas subordinadas à hegemonia e ao programa progressistas.

Questões da governabilidade empurraram os petistas para a predominância de uma frente tática, tendo no PMDB seu principal parceiro. Não foram poucas as forças e lideranças tradicionais do campo popular a se afastarem do governo por conta dessa estrutura de alianças.

Eduardo Campos talvez tivesse, nessa lógica, bons motivos para brigar com o PT, mas o fez pelas piores razões. A falta de organicidade de seu partido, em vários estados mera legenda para grupos conservadores, pavimentou o caminho mais fácil, comum a quase todos que romperam com o projeto petista desde 2003: a zona de conforto dos dissidentes costuma ser alguma trincheira ao lado da direita oligárquica, mesmo quando permanecem em seu próprio quadrado.

Ainda assim, sua morte merece o pranto e o respeito de todos os homens e mulheres de esquerda. Não por seu presente, tão contraditório com seu passado, mas por sua história e a de sua família.

Breno Altman


Um comentário:

edgar saraiva disse...

EXCELENTE ABORDAGEM!!! EU DISSE EXATAMENTE ISSO! NINGUÉM DESEJA A MORTE DE UMA PESSOA. MAS NESSA QUESTÃO POLÍTICA, ERA PRECISO DIZER A VERDADE. VENDO A COBERTURA FEITA MÍDIA FICOU AINDA MAIS CLARO O QUE ESTAVA SENDO TRAÇADO NA CAMPANHA. CAMPOS NÃO HONRAVA A HISTÓRIA DE ESQUERDA E NEM O DE ANCESTRAL MIGUEL ARRAES. PIOR AINDA, FORMAR QUALQUER TIPO DE UNIÃO POLÍTICA COM O PSDB E A EXTREMA DIRETA, ERA UMA TRAIÇÃO AO PROJETO POLÍTICO QUE O PROJETOU. NO CASO LULA E O PT. LAMENTÁVEL QUE TRAIRAGEM TENHA PASSADO A FAZER PARTE DE ACERTOS POLÍTICOS COMO SE FOSSE A COISA MAIS NATURAL DO MUNDO. CAMPOS NÃO ERA MAIS DE ESQUERDA E SIM DE DIREITA. RESTA SABER AGORA O QUE OS MANIPULADORES QUE JÁ ESTÃO EXPLORANDO A MORTE DO POLÍTICO VÃO FAZER . PRESTEM A ATENÇÃO! ALERTA.