quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Das pesquisas

Em uma eleição sem ânimo, desprovida de toda emoção esperável de uma disputa pela Presidência da República, foi nas pesquisas eleitorais que os cidadãos encontraram motivo para sentir alguma sensação mais densa. Em duas ocasiões subsequentes. A primeira, com o pasmo ao deparar os erros incompreensíveis das expectativas criadas pelas pesquisas finais. E logo a segunda, a dúvida e a perda de confiança nas esperadas pesquisas do segundo turno.

Há um mal-estar disseminado com as pesquisas. E, da outra parte, o que tanto pode ser algo como descaso das entidades pesquisadoras, em coerência com sua presunção de donos do saber oracular; como pode ser compreensível dificuldade de proporcionar explicação convincente para os erros.

Datafolha e Ibope foram excessivamente contidos sobre o que ocorreu ao retratado neste título de o "O Globo": "Em nove estados, pesquisas longe da realidade", e o complemento: "Datafolha de sábado e boca de urna do Ibope tiveram imprecisões de mais de dez pontos percentuais". Ao problema dos Estados, juntem-se as pesquisas finais e os resultados para a Presidência.

No mesmo jornal, Mauro Paulino, diretor do Datafolha, fez uma consideração valiosa sobre as pesquisas: "Até por marketing, nós mesmos, dos institutos de pesquisa, tratamos esses números divulgados na véspera da eleição como prognósticos, mas, na verdade, eles são diagnósticos. Eles refletem uma realidade que já passou".

Não é fato, mesmo, que as pesquisas não sejam apresentadas como previsão, como antecipação. E é por se apresentarem assim que suscitam interesse, sempre, e ansiedade quando previstas. Há pouco adotaram mais um elemento fortalecedor do modo como se apresentam, acrescentando um "percentual de acerto": 95%! Para o público, pouco compreensível, mas impressionante.

Ainda mais importante na caracterização dada às pesquisas eleitorais, é dessa artificialidade que vem a sua influência modificadora do voto original de muitos eleitores. Poder em geral negado pelos pesquisadores, mas tão real que gerou, a partir de pesquisas remotas do Ibope, o conceito e a prática do "voto útil".

A influência eleitoral das pesquisas recebeu reconhecimento implícito em uma das possíveis causas, citadas na Folha (7.out, "Eleições 2014", pág. 11), da diferença entre o último Datafolha e a votação para presidente: (...) "a própria repercussão do resultado da pesquisa da véspera nos telejornais de sábado à noite e nos jornais do domingo", porque esta pesquisa trazia Aécio à frente de Marina.

O problema das discrepâncias se agrava por nada provar que as transferências de votos se deram, de fato, nas últimas horas. É possível que a inconsistência não estivesse no eleitorado, mas em partes das pesquisas. Ou em ambos. Datafolha e Ibope já se desentendiam de longe e em vários Estados, com a óbvia conclusão de que cada um já estava mais certo ou mais errado aqui ou ali. Nada a ver, nessas diferenças às vezes bastante grandes, com mudanças no eleitorado. Questão em aberto, pois.

Deixar sobre todas as pesquisas as cautelas que algumas das empresas pesquisadoras podem merecer é, sem dúvida, muito ruim para o eleitor. O questionamento não é à moralidade, é a possíveis procedimentos e aos resultados. Há, portanto, o que repassar e o que explicar, como a confiança conquistada pelas principais pesquisas justifica. E há o que pensar para que as futuras pesquisas se apresentem, em respeito ao leitor/ouvinte, de maneira mais proporcional à dimensão tão relativa das suas verdades.

Janio de Freitas
No fAlha


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