domingo, 16 de junho de 2013

A luta é pelo direito de manifestação do sujeito da esquina

"A praça é do povo como o céu é do Condor" (Castro Alves)
“A praça é do povo como o céu é do Condor” (Castro Alves)

Por Ana Helena Tavares(*),
Certa vez, o então presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, proferiu a célebre frase: “Não se dá independência ao juiz para ele ficar ouvindo o sujeito da esquina”. Ora, quem é o “sujeito da esquina”? É aquele que pega ônibus, trem, é aquele que precisa da saúde e da educação públicas e de qualidade.
Juiz não ganha independência para ouvi-los. A independência é dada aos juízes para ouvirem os especialistas da Globonews e andarem com a capa da Veja debaixo do braço.
É isso o que o Brasil tem presenciado nos últimos anos: uma política feita nos tribunais, pautada pela mídia. Quando as ruas gritam, a repressão policial que se vê é de deixar os generais da ditadura corados de inveja nos túmulos para onde foram impunes.
Nem eles ousaram dizer que uma aglomeração de “sujeitos da esquina”, lutando por muito mais do que 20 centavos, era “formação de quadrilha”. E há quem diga que “essa juventude não tem mais o que fazer”. Essa juventude está fazendo política. E é nas ruas que ela tem que ser feita.
Quem compara as manifestações pelo Passe Livre que levaram milhares às ruas nessa última semana à “Marcha com Deus pela família e pela liberdade”, achando que pode ser o prenúncio de um novo golpe, deveria ler os jornais da época. Lá, também se estava fazendo política, mas, segundo o JB de 19 de Março de 64, a banda tocava de outra forma.
“A Marcha saiu da Praça da República ao som dos clarinetes dos Dragões da Força Pública, e chegou à Praça da Sé com os sinos de todas as igrejas repicando simultaneamente, enquanto a banda da Guarda Civil executava Paris Belfort, o hino da Revolução constitucionalista de 1932.”, registrou o saudoso jornal.
Não houve repressão policial. Muito ao contrário, os militares apoiaram a marcha. E, se puxarmos para os dias atuais, cabe perguntar: alguém viu protestos contra a “corrupção” (que sempre foram protestos unicamente contra o PT) colocarem muita gente na rua? Alguém viu eles serem reprimidos pela polícia?
Infiltrados, mal intencionados e oportunistas existiram em toda a história da humanidade. Vão existir sempre. Mas o direito à manifestação é inalienável e é urgente que as pessoas percebam o abismo que há entre lutar por melhores condições de vida e lutar para derrubar quem quer que seja.
*Ana Helena Tavares, jornalista, editora do “Quem tem medo da democracia?“.


Do Blog Quem tem medo da democracia?

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